quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Mazelas: Feridas Abertas



Massiferação embrionária da podridão fetal

Minha carnificina pessoal é a frieza estéril do meu ser

Que seja feito o que era para ser feito não é a resposta,

Para esta que é sim a pergunta.

Na latrina deixei parte do nosso amor

Mas nunca há o esquecimento, há sempre a dor.

São apenas laços desfeitos do cordão umbilical,

Que não provam nada, nem mesmo o amor.

Deixam-se caminhos abertos, sem volta,

Para a passagem das decisões tomadas,

Para as mazelas em preto e branco avermelhadas,


Por trás de todas as comiserações dos rumos tomados

Num laço infinito do circunstancial.

Aprovarei todo desafio rumo a purificação,

Mas sem negar a desertificação envolvida

Nas noites rubras em que vivi. Nua...Seca...

Quase inerte na incerteza das convicções,

Numa dança lenta da sinfonia da morte,

Onde veias dilatando a torpicidade do meu encontro a carnificina

Iam a lances rápidos cortando a minha consciência

E depois havia somente o choro, o lamento cósmico,

Da minha agressão fatal, adormecida aos sentidos.

Tão negra e tão nua estou aqui...

Arrependorozamente viva, quase como um anoitecer,

Ainda sem brilho e sem esperança.

Roxidão de um olhar partido que parte a todo instante,

Nesta corrente lamentosa de partidas,

Na maca de um novo amanhecer,

Pois na latrina deixei parte do nosso amor,

Mas nunca há o esquecimento, há sempre a dor,

Que são apenas laços desfeitos do cordão umbilical

Que não provam nada, nem mesmo o amor, meu amor.

domingo, 9 de dezembro de 2007

O Outro


Da floresta ouve-se o grito,

A cabana esconde o medo,

Nos sonhos abrem-se portas,

Para o encontro da dor.

Sob o céu escuro em chamas,

A criança grita em silencio,

Suas preces são atendidas, mas já e tarde,

E a noite esconde os crimes.

No milharal se arrastam os odores fétidos,

De um caçador vingativo,

Em perigo a criança corre, mas já e tarde,

A monstruosidade não poupa inocências,

O outro se faz na extremidade da consciência,

E o mundo cala e esquece o odor contido.

W.O.

sábado, 8 de dezembro de 2007

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

A mundanidade e seus dejetos


Se há um Deus, ele é o mais tirano, o mais perverso, sádico e cruel. Mas se não há um Deus, estamos irremediavelmente fadados ao peso da existência. Turvados a impossibilidade de escaparmos deste fardo depois de seu acontecimento se dá: o nascimento, mesmo com um único suspiro e depois a morte, mesmo assim existimos aparentemente...
Se formos possíveis dentro das possibilidades do poder-ser, possuímos a única destinação fatal de estarmos cheios de nós mesmos. Mas que discussão mais vazia de conteúdo, e, sobretudo que mentira essa que está enraizada pelos farsantes da filosofia. A nossa individualidade está sempre relegada ao poder da coletividade, soma final de direitos outorgados a poucos. Como posso ser eu indivíduo num poderio incondicionado de ser se nem mesmo faço juízo pleno acerca de mim mesmo? Como posso outorgar-me direitos se represento sempre o reflexo da dominação que se instaura no pensamento e é refletido através da política? Todo homem só quer mesmo ser homem. Esse direito fundamental não lhe é experienciado, pois o modus operante que estamos relegados faz sempre parte de uma política relegada a poucos, e nem mesmo estes conseguem controlar a sua máquina hostil. Ai que a cada dia sôo a min, menos e menos humana, pois sou particularmente devotada a minha declinação final no hall de anti-humanidade. E sabe porquê? A realidade causa náusea.
Nós aqueles que pensamos, nos cercamos, em tantas verdades pessoais e morais, encobrimos nosso leito babaca de vontade de dignidade que até esquecemos que é preciso ter mais de uma vida , talvez mais de cem para chegar-se à conclusão de tal ato. E imagine que eu que vivi ainda tão pouco, já carrego em mim a soma cruel de tais afirmações. Carrego tal qual uma cruz, e percebo que mais do que nunca que a “fábula”, e que fique claro esta aspas, a fábula tinha de fato uma mensagem a passar a humanidade, claro que ao acaso, só que o instinto cruel do homem relegou a sua figura ao estatuto da moral do escravo o que combinou bastante com a sua insanidade burra de amor aos homens. Mas alguém ai faz idéia do que foi a sua mensagem? Parece-me tão demasiado simples que me faz até rir. Pois é, a cruz é somente a causa eterna da nossa expiação, pois aquele que escolhe a vida carrega uma coroa de espinhos na cabeça, que lentamente cada dia corroi-nos junto à cruz da existência. Ha ha ha que destino fatal este o dos homens! Morre-se apedrejado pelo seu instinto atroz à fraqueza.
A boa nova do cristianismo cristianismuschlikeit de divinização/humanização libertária nada me diz sobre este eu que carrego, essa condição jesuítica faz parte de um estatuto de um homem fraco e atormentado pela sua infância, onde a figura humanitária de um Deus levou-o a loucura e a expiação. Chega de direitos humanos. Como dar direitos a quem desconhece a sua finalidade, se é que o humano teve este propósito, as circunstâncias dos acontecimentos parecem estar ai galgados ao acaso e pretender ter algum propósito parece mais uma pretensão sem sentido, algo típico da figura humana ter desejos substanciais. Desdenho do homem e seus conceitos tolos de dominação, superação, conceitos artísticos, políticos e, sobretudo ético. Que se façam anedotas sobre esta conduta humana nosso amigo o Marquês de Sade foi neste ponto soberano em revelar as formas monstruosas em que se escondem os homens, que precisam de boas roupas e alimentar-se de forma adequada para poder mascarar melhor o fingimento de parecer mais elevado na escala animal. Tão tolo nas suas considerações que só o sexo vem com toda a sua força mostrar a animosidade contida nas mentes humanas, capaz de fazer o mais inocente cristão enervar-se de seu comportamento quando as luzes estão apagadas.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Schwarzhimmer wald



Sob as sendas da floresta sem fim deitam em mim Raízes funestas de um perigo atroz Onde sendas ominosas se confundem com o cheiro viscoso da terra, Sempre o mesmo drama da terra esgotada no fogo Do deleite estranho de corpos perenes e vingativos, Centelhas reluzem o gosto amargo da mulher que se deita em chamas Os escudos bradam a saudação da morte enquanto as águas levam sua essência. Eu estou sozinha com minha esperança morta, Apaziguada pela lembrança da criança que viveu em contos agora esquecidos, No céu escuro da floresta insensível ao caçador que em ódio espia a vingança.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Solilóquio de uma musa errante


As nuvens se dissipam no horizonte,

Como musas errantes em montes gregos,

Escarnecidas pela descoberta da razão,

Envaidecidas por algum Deus estéril e sarcástico,

A divindade é uma maldição, o espanto uma doença.

Amarga são as serpentes da medusa,

Veneno fétido de considerações monumentais,

Sujo como o solo gasto dos templos de Deuses confusos,

Perdidos na estratosfera de um mundo dual.

As escuras serpentes que aí se escondem cegam a alma

Daqueles que em virtudes inférteis se escondem,

Assim sou eu, assim se faz o mundo em ruínas e escombros

De uma guerra seca entre desejos incertos e lamentos inúteis

Quem em negras nuvens se dissipam no horizonte atroz.

W.O.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Eine Lichtung


pura explosão, poira de estrelas, pura possibilidade e fruto de muitas tentativas alheias, o resumo de um nascimento, como a caixa de pandora, como a colméia de abelhas, retrato frágil de idiossincrasias, contorno claro de uma libélula, uma lady lázaro a se decompor em meio a fissuras e abismos, associada a antigos deuses e fruto de sua própria mentira. Perfume de opium, quase sem escrúpulos, um requiem esquecido de algum rito fúnebre que se perdeu em dor, uma lilith arguta, de botas de canos altos, melancólica, sarcasmo atualmente inoperante e nem em milhões de anos existiu algo assim....
W.O.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

O Grande Arcano



Sobre fendas e abismos o fantástico e surreal labirinto do fauno reluzente

Sucumbiu a estratosfera dos abismos das qlifoth malignas

Sublime feitiço de uma dama sabática, desejo repentino,

Consumidos na chama orgiástica da dor.

E quem somos nós a não ser resquícios de uma aurora perdida,

E quem de nós lançou o grande arcano no jazigo da solidão?

Correspondências mágicas e coincidências fatais,

Resvalando o sinuoso abismo de cores,

De um mundo que se esconde na poeira de estrelas,

Do meu mundo que não encontro mais.

Lil negrae

poetry




Todas as palavras já foram ditas acerca do poeta e seu ofício, criadores de ilusões, fanfarrões dos sonhos e artífices dos desejos, sua relação com o mundo está sempre na difícil tensão entre viver e sonhar, sonha para viver e vive para sonhar. Em todo caso, gostaria de ser outro que não ele mesmo, mas não lhe é dado esta escolha, pois ser poeta é a sua destinação fatal, não encontra sossego em outro ofício que não este, não tem talento nem mesmo para pensar outra coisa. Porém, ser poeta não exige talento, pode-se ser considerado um péssimo poeta, mas mesmo assim poeta. Entretanto, esse jogo de espelhos não satisfaz o ímpeto do poeta, talvez porque sua característica mais marcante como poeta seja a de ser insaciável, a sua avidez pelo mundo o consome de tal modo a causar insanidade mental.

domingo, 9 de setembro de 2007

Look at the moon ...and suddenly i feel the death



Looking at the pale moon i saw my dreams come true,

with a little air of melancoly planting seeds of destruction,

Come unto me as a morning star that never goes away

A smell of violets falling from the firmament like a orgiastic dance,

And I wonder myself into the deep area of circulation.

A scarecrow passed behind my naked eyes and takes all my angels

for walking in a distant lands that never will be forgotten.

So i felt dawn is a pale moon, fall down like hurting birds without no voice

And suddenly all that scares goes with the fog for a hundred miles away

In the deep down of the oceans and I …

So out of control as you speak so louder and so proud

Just like the voices that never stop crying´

Surrounded for the firmament

And once more time looking at moon

Judgement is open reveiling my pure sadness

That never goes away

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Lembrança da Morte


A fada suicida crescia em silêncio e do reino encantado ela se desfez,
Todas as meias verdades escondidas morreram com o seu mentor.
As flores mortas já não exercem este poder,
As tuas glórias já não te fascinam,
O teu coração em pedra se tornou, o que era para ser seu em pó tornaste,
Sem lar e sem direção só dor restou.

Toda a constância da dor é o espetáculo da vida,
Uma tragédia oca e sem direção,
Uma masmorra de ventríloquos, moscas e eruditos.
Por um deserto um coração segue sem rumo,
Em busca de um mundo sem mágoas, ou de um reino perdido.
Essa imanência é um jogo sujo do senhor das moscas
Em seus artefatos de mentiras, em sua face oculta,
Em seu acordo velado no labirinto do horror,
E o seu rumo se mantêm e o seu mito se detêm,
E quase todos os cavalos murmuram ao luar,
E quase todas as musas se põem a dançar,
Sob um gemido vago e destemido,
Sob o encantamento distorcido,
De um Dionísio louco e escarnecido,
E do meu pranto aturdido, vencido,
Bruto, amargo e retorcido.

Uma estrada perdida é aquela que se segue sozinho,
Como a continuidade da vida a se esgotar nas circunstâncias de um sonho perdido.
Malevolência ou sapiência de um destino atroz que se desfez,
Como um vento ominoso, sensual, carnívoro e fatal,
A fada suicida segue seu curso a se revelar.



Lil Nigrae

terça-feira, 12 de junho de 2007

pensando Heidegger e Nietzsche...


Quase sempre enxergo o espetáculo que é o nascimento como a tragédia pessoal de cada um. A partir do momento em que nascemos já caímos constantemente no mundo hostil das possibilidades, esse estar lançado em que nos fala Heidegger, nos traz a angústia da participação do que nos é tão próprio. Nascimento, vida e morte é a constante deste processo do estar lançado, tal como Nietzsche afiirmava, do homem ser uma corda estendida num abismo, sempre nesta tensão entre o homem e o além-homem, mas como algo que se extende, participar é possivel, mas não acontece, há sempre a possibilidade, mas não o acontecimento, é sobre este caminho a que anda o meu pensamento. Para Heidegger acontecimento como em Aristóteles é EREIGNIS, mas como podemos acontecer neste mundo automatizado é ao que se alude a questão. Portanto, dentro de uma perspectiva hostil de se pensar o que é o homem e sua tragédia pessoal da tríade: nascimento, vida (viver) e morte o ser possível se torna o estar em consante processo de vivência pessoal dentro de uma estrutura ôntica-cognitiva-transcendental.
ficou claro? kkkkk insólito, ham?

domingo, 22 de abril de 2007

O cinturão de Hipólita


O cinturão de Hipólita

Como eu também desejo vida, mas de um modo estranho não a encontro

Ou não nos encontramos no mesmo percalço da vontade de viver.

É um desejo de vida que se vive em separado,

É um distanciar-se junto ao outro em que se vive,

É esse entrelaçado distante e ocioso na proeminência de circunstâncias vagas.

Você partiu as pérolas e entregou a Zeus e nem me disse adeus,

Suas poesias a min nada disseram, apenas a teu ego confuso sobreviveu,

E nada mais do que isto se fez nesta curta jornada de situações.

Sobre as cinzas do teu passado as ilusões se desdobram,

Uma coroa de flores para as tuas glórias que não são muitas e nem astutas,

O teu consolo é a sua arte não muita justa, que não julga nem escuta,

Apenas se define como pura, almeja grandezas, mas se parte em amarguras,

Só te resta o esqueleto podre de tua nobreza e secura.

De uma Hipólita cansada e vencida se partem os louros da guerra vencida,

Por um cinturão e um tostão de vida valeu à pena a ferida,

De ser sua passageira da agonia,

Nesses encontros e desencontros de uma história perdida.

W.O.

terça-feira, 20 de março de 2007

A Mundanidade (IV)


Sob a fraqueza da adversidade

Porque você me odeia tanto, se tampouco vim a me perceber,

Neste universo infinito de desconsolo?

Que papel me coloca a representar neste cenário de dementes,

Se nem mesmo me considero atriz?

Sobre que insígnia bradastes meu nome,

Se nunca quis ser marionete?

A partir de que lembrança destruístes meu ódio,

Para enfim deixar pairar apenas essa agonia infinita?

Do sopro de um Deus enfurecido enraizastes a minha despretensa melancolia,

Vagando no firmamento de guerreiros esquecidos a minguar,

Nestes dias em que oceanos sobre tempestades se movem,

No estado ardente da consternação.

Porque preciso eu da consideração monumental do passado,

Se vago sem determinação no presente das circunstâncias?

Sobre que estatutos, construíram os fatos heróicos,

Se tudo que remete ao caos trás o símbolo da transformação?

Da prosternação da musa aos símbolos fálicos, em queda fui ungida,

Resvalou-se a memória ardente de uma lady Godiva.

Da desconsideração de pseudos anatomistas às travessuras sabaticas,

Sob a fraqueza da adversidade, resoluta e mantida,

Faz-se uma lilith arguta, assumida.

W.O.

A mundanidade ( III)


A montanha liberta

Ela vive no topo de uma montanha, cheia de perigos e abismos,

Um presente e uma perdição, uma senda e um destino

Onde todas as colinas colidem no catastrófico serpentear de cores.

Viajando no infinito azul montanhoso de formas,

Sobre finas camadas de algodão acinzentado,

Um leve susto acorrentado, dos dias esquecidos e repartidos,

De encontros e dúvidas.

Comportamento humano posto nos pés de um atônito Deus

Que esqueceu do seu destino atroz.

Psicanálise de mortos para a musa predestinada,

Colidem no acidente coincidente da prosternada

Esses extintores ensombrassem o silêncio da pálida mágica

E empurram a beleza que ali deveria ser.

Emocionalmente embalada pelos sinos do alto da torre.

E vejam quão alto era ali e imaginem

Toda a ioga da liberdade da montanha

No sopro adormecido da sonhadora.

W. O.

A Mundanidade


Adágio Poco Mosso

Do alto da minha janela, a intensa melodia de adágio poco mosso, me remete a alegria das tenras tardes em que outrora sonhava com a mágica que a vida trazia, quase como um presente, suave e febril. Há... essa atmosfera de sonhos na qual realizava quase uma vida paralelamente a realidade, fazia minha alma realizar-se apenas em sonhos. É um risco sonhar tão alto, pois a queda de retorno à realidade soa quase como uma prisão. Pois é, sou quase como um pássaro ferido, no qual encontra a prisão no universo racional. O meu algoz? Há, já o conheço de longa data, está em min, sou eu, quer dizer acho que deve ser algum dos milhares de eus que em min reside. Há que melancolia, sentimento vago e indefinido, que nem se faz alegre nem triste, é só como é mesmo, “uma coisa defronte da outra”, no entanto, “nem uma coisa nem outra”. Há ha há... Quem me dera nascer de novo, e assim me fazer outra vez, de como eu era menina, e de como eu não sofria, ao sofrer demais e mesmo assim não entender deveras o que sentia. Que prazer, que dor, que viver sem cor.
Meu pesar que não cessa jamais é interrompido pela coruja amiga, que busca repouso antes do vôo da noite na penetração pela escuridão voraz e parece me olhar, mas é só uma impressão do que se faz centro do universo, só um eco e uma vontade. Essa esperança do sonho é quase meu destino fatal e minha descrença subjugada e tolhida. Desesperançosamente bela. Há minhas lamúrias, desbravam toda a tensão do meu mundo atômico. É uma dor, é uma sorrir sem sentir, é quase como um grito surdo de uma latrina qualquer, do correr incessante, por uma rua tediosa e esquecida. Dos dias que corri, dos dias que cantei desdenhosamente quando fui conquistadora de um novo mundo que em min se formava e de onde tirei todas as riquezas e tesouros... Mas que exploração inútil, pois agora nada encontro e me deito em solo infértil, sinto essa rigidez, seca e pavorosa, que me estendo e durmo de calor.
Poxa que calor, que saudade das tardes tenras, poxa quanta dor, quanto amor que guardo em min, de desejo de um mundo esquecido, deixado para trás e de minha história que nem sei contar mais. Quantas horas, quantos atrasos, quantos minutos perdidos numa janela de sonhos e de uma vida que quase não vivi. E onde estava então? Não sei, não vi, acho que também não senti! Hei converse comigo, me diga a que horas tudo isso se passou, e por que eu perdi. Fatalidade ou destino, de tão piegas que soa quase esqueci da premonição fatal, da rainha do desassossego, a angústia plena e introvertida que me tirou o sono e me deixou sem consolo, que me tirou a vida e me deixou sem sonhos, no adágio poco mosso, das ilusões do que nunca vivi.
E assim soa mais um dia qualquer na minha vida inútil que passa devagar. Sento e espero alguma mudança, mas nada acontece, é sempre esta mesma angústia, de estar assim pensativa, esperando um grande acontecimento. Vi na TV uma hora dessas o segredo da longevidade da vida—A esperança. Mas que tolice, tenho vivido todos esses anos assim, iludidos por este sentimento nefasto que chamam esperança, mas que dele quase me livrei, pois de nada basta juntar pedaços de memórias tristes como indício de um novo despertar. Essa bizarrice chamada esperança só nos serve de consolo de uma vida fastiosa e mesquinha que nos exige sempre mais e sempre de novo, e sempre a mesma coisa. Há que tédio fulminante, que ódio hostil dessa vida tão ingrata e indolor, tão desmerecedora de prazer.
Eu sei o exatamente o que pensar de algo assim que escrevo: pesado, tedioso, enfadonho, comum, ou seja, o puro romantismo agonizante de outrora, que sempre nos perpassa no mais das vezes, como uma lança a cortar na carne e nos envolver numa dor indizível. Mas é apenas o que há e então o que posso fazer porra? Não tenho lugar no mundo, neste mundo que é para pessoas que se dobram em utilidades, na utilidade de servir aos outros, de exercerem seus papeis representativos. Poxa todo esse mise en scène, essas máscaras, esse jogo de se recobrir em gostos e disposições como genuíno esforço de se fazer presente frente ao mundo, quando na verdade só possuímos o jogo livre da fantasia, do mundo dos sonhos, nossa imaginação, um mundo próprio livre das convenções, cheia de desejos e meias verdades, que a ninguém tem o que dizer somente uma fuga, um abrigo solitário e ingênuo, pois tem medo desse mundo instituído em regras e conceitos.
Preciso me alimentar não mais de frutos perniciosos que contaminam cada parte minha, mas sim preciso alimentar algo em min que se encontra rompido por gerações de detratores, algo como um afrodisíaco ou um estimulante, renovador, cheio de força e, sobretudo, mágico. Sei que erro quando peço em voz alta, sei que é uma fraqueza minha, mas nesse mundo agonizante é tudo que me resta, é ver do alto da montanha que está o ovo da serpente e através da tempestade não mais sonhar, mas sim contemplar a força, encontrando o anelo que me envolverá enfim de volta ao lar.

...

A Mundanidade



Ávila sempre foi dada a excessos e que quase sempre eram regados a brigas e discussões que até hoje não a acrescentaram em absolutamente nada. Hostil a quase tudo que é humano, vivenciou cada gota do seu ódio paulatinamente até se fartar. Celebrava constantemente os outros caírem em desgraça, chegava quase ao êxtase do prazer e satisfação que causava ver os sonhos, decepções e amarguras dos que estavam a sua volta. Não que fizesse isso por instinto, mas sim por frustração advinda da sede de vida que se dissipara e que como conforto de uma alma morta estava a se configurar na necessidade destrutiva de se lamentar pelo sucesso alheio. Talvez o que mais a desagradasse era o fato de por mais mal desejasse aos outros, parecia que a força de seu pensamento acabava resultando em bons agouros para os outros, a tal ponto que a sua amargura com o passar do tempo só piorava o que sentia. Todas as suas idiossincrasias partiam de um apelo inconsciente de vontade de vida, de sentir em seu âmago o profundo do humano, o transbordante ponto entre êxtase e salvação, o vagar solto na beira do abismo entre atmosferas desconhecidas e chegar ao ponto máximo de ebulição sem nada a desejar, mas, no entanto, apenas o gritante fato do que era a vida até então lhe ocorria, sobre a problematicidade e o espanto dos porquês da vida, esse regressar infinitamente para nenhuma resposta possível, a de que para cada porque há sempre mais um porquê e assim infinitamente.

...

quarta-feira, 14 de março de 2007

O sopro



Um sopro de vida contaminava o ar. Vindo do lado norte, da antiga construção com suas torres de estranhos contornos em espiral, catalisadores por excelência de energia cósmica, fonte da imponência e arrogância de antigos deuses-sacerdotes que outrora dominara aquele lugar que agora só tinha como seu dono a vegetação local. Desenhos indefinidos e árvores secas inclinavam-se sobre a entrada da torre mais alta, por sobre a sacada, como também uma espessa fuligem que se confundia com uma areia negra e sebenta de cheiro forte tornando o ambiente desdenhosamente hostil.
Confundida entre as sombras ela se ocultava. A espreita de algum movimento, ela deslizava. Condenada, perscrutava o sopro com perfume de lírios brancos que a fazia retornar ao mesmo lugar repetidas vezes resignadamente na esperança de encontrar o jazigo de sua alma. Perdida em meio ao som das musas enviadas de poisedom misturado ao quebrar das ondas nos imponentes rochedos, o delicioso turbilhão de vozes melodiosas enrijecia aquele corpo cansado, emudecido ante a vigia imposta pela mente. Mas até mesmo um corpo cansado tem linguagem própria e envia a uma mente ávida o pedido de repouso, pois, quanto tempo ainda suportaria aquele auto sacrifício imposto? E assim, caindo em um sono profundo, secretamente sua mente fugia por alguma passagem obtusa e ominosa que se desvendava ardilosamente no sono, e que tal qual um segredo não se deixava revelar nem a si próprio no momento do retorno à prisão imposta pelo corpo, fazendo sua mente se tornar o ardil necessário para todas as ilusões sutilmente projetadas. Pois o deleite do mundo onírico é veneno fatal na busca além-ser que permeia as mentes.
Viajando por entre abismos a embarcação dos mundos inferiores seguia na sua busca ao inominável, lentamente navegando ao seu presumido destino, sob cavernas lodosas e rios de larvas onde o vapor quente criava uma cortina de fumaça encobrindo vertiginosamente a pequena embarcação. Sob todos os lugares presentes se erguiam olhares sorrateiros ante tal embarcação desconhecida. Havia um horror natural de todas as criaturas daquele universo rastejante que os impactavam de tal maneira sórdida de modo a manterem-na na penumbra, encurvadas, quietas e ajoelhadas sob um silêncio sepulcral. Apenas a espreitar a inaparente figura prostrada à frente da embarcação que se mantinha velada debaixo de um manto negro escondendo a delicada e fina veste branca que cobria a sua espectral figura resplandecendo todo aquele temerífico brilho destinado a adoração sacerdotal em que era envolvido o seu semblante. Reverenciada e temida, seus olhos aguados, obscurecedores de almas, transformava tudo a sua volta em sombras pálidas do que havia sido outrora.
A subida foi longa e árdua revelando a urgência de seu acontecimento, toda a destruição deixada para trás se fazia indicio de uma desvairada busca por um mundo de sonhos que havia sido deixado para trás e que mais uma vez pelo jogo terrífico dos além- deuses estava prestes a se descortinar . Mas o perfume dos lírios brancos que invadia as profundezas abismais anestesiava a todos os tripulantes da embarcação produzindo uma intensa atmosfera de fantasias misturada a uma melancolia vaga e indefinida que os atordoava e os levava de encontro ao apelo inconsciente da morte, que vaga sempre certa por entre mentes alucinadas, mesmo naqueles que já fizeram a travessia para além do mundo dos mortos—Os notívagos sem alma.
Ah, o perfume! Que êxtase, que delírio terrestre, que danação! Era esse o perfume perdido no qual despertava a tenção da musa petrificada, insana na imersão de seus vãos desejos abissais, um perfume que trazia o desbloqueio de emoções até então perdidas e a sensação de um reconhecimento vago de algum momento de paz misturada ao acalento doce de uma manhã tenra e uma aurora glorificada. Este turbilhão de emoções provocou uma tensão resignada à figura descontente.
A chegada à saída das muitas cavernas que circundavam a ilha gelou a infernal figura. Enfim estava próxima. E essa circunspeta proximidade tornava-se ainda mais nítida com a audição de tambores em uníssono, inflamados por gritos hostis de bestas ensandecidas pela influência da gigantesca lua sangrenta que despontava céu adentro. Evocando e clamando toda a malignidade em exortações ao sagrado, ao misterioso bradavam a todas as extremidades da superfície terrestre o rompimento da fina barreira fechada pelos sete selos do cataclismo cósmico.
A embarcação vinda da imensidão do distante mundo inferior chega ao seu ponto final e sob a baixa maré ela desce molhando as vestes brancas da espectral figura, mas de beleza incomparável, sobre-humana. Seu corpo molhado até a cintura caminha sobre a areia e o manto é jogado sobre o chão e assim segue. Aquele som dos tambores causou aflição aos seres inferiores escolhidos para tal missão e em sua volta o clima de insanidade tomou proporções catastróficas, um bando de criaturas cadavéricas, gemendo freneticamente e aturdidas lançam-se sobre o frio mar Egeu. Saíram de catacumbas fechadas e silenciosas para descobrirem os seus fins congelados no mar do desconhecido nada. Assim ela segue completamente só no seu intento, atordoada pelo perfume anestésico e vagar por templos esquecidos a cair num sono vago e profundo. Após um transe fulgaz e intermitente o despertar se dá quase que como um sopro de vida, revigorada pela força maestra do luar, irradiando um brilho lustroso que renova o interior dos seres. Insanamente ensaiando passos descompassados, segue o ritmo da odiosa melodia passando por um imenso círculo de pedras, ela sobe a um monte chegando até a antiga construção de torres em espiral aonde os sons de outrora vão resumindo-se ao silêncio da noite. O cheiro de lírios brancos continuava presente e se tornava cada vez mais intenso, assim brotava o pensamento da certeza de que daqui provinha o cheiro que soprava até as cavernas distantes nos mundos inferiores.
Percorrer aquele imponente corredor de mármore por de trás da antiga construção parecia não ter fim e levava a uma escadaria que dava para um outro ponto do monte, onde ao descer se encontrava um lindo jardim com árvores frondosas e flores diversas. Em seu centro haviam sido deixados montes de lírios a queimar e muitas oferendas deixadas. Havia de fato passados alguns seres naquele recinto sob algum propósito deífico. Um pouco mais na frente galhos em forma de serpente encobria uma pequena passagem que levava a uma pequena clareira que era particularmente embebecida pela lua de sangue, um monumento da natureza primeva como demonstração de sua arrogância e plenitude ao mundo primitivo.
Ao se abrir à clareira ante a figura espectral antes adormecida, ela caiu ajoelhada num pranto desesperado. Gritos lamuriantes acordaram toda a extremidade do espaço terrestre, até mesmo de universos distantes. O que havia sido selado e manido em silêncio por décadas e gerações se rompia num choro descompassado e rancoroso. Então, um rio de sangue banhou a sua veste branca. Toda a sua dor dissipada em lágrimas de sangue. Estava ele de frente para aquela enorme estátua do mais belo mármore, engenho de mentes prodigiosas, construída sob a égide de eras longínquas, alicerçadas no ser que reveste o mundo como prova de sua magnitude e exuberância. Era ela, sempre havia sido, frente a frente consigo mesma, face impiedosa, dura, enrijecida. A mesma figura espectral, intacta, intocável, espetáculo de toda a dor, dilacerada diante o temor. Então, a despeito de todo o horror, escarnecida pela visão monstruosa, a senhora dos mundos inferiores, lança-se com um bloco de pedra a atingir pavorosamente a estátua, gritando ensurdecedoramente. Rachando e depois fatalmente partindo em pedaços a estátua. O tilintar dos pedaços de mármore no chão foi o suspiro final do que de verdade nunca existiu. Apenas resquícios ou fragmento desconexos de fantasias antigas que a memória não apagou.

W. O.

tudo em vão?

Acordei com esta sensação, a de que preciso de uma nova estação ou de um mundo novo, me reinventar talvez para outras esferas de pensamento, mas enfim... nada acontece só o de sempre, este medo vago e indefinido de tantas auroras perdidas, e de todos os "se" que por min passaram.

A irrupção da Lady Lázaro

Um novo dia recomeça, e com ele todas as falsas esperanças...

Para além de toda a imensidão dos muros, um novo mundo se recria.

Um medo vago e indefinido, uma glória de fanfarrões,

Um paraíso perdido em meio à multidão.

Em favor da vida as potências irrompem através da partícula espaço-tempo,

Um pequeno farfalhar de asas ao redor de casa,

Uma lady lázaro em meio aos monstros malignos,

Uma pequena luz e um sorriso,

Entre canções vagas e gemidos.

Tremeluzindo devagar se sente o vapor da dor,

Do medo, do rancor...

Um entardecer de despedidas,

Das minhas falsas ilusões,

Um passo a angst, uma vida perdida,

Uma viagem do viandante em meio aos vilipêndios,

Da torrente turbulenta em meio aos detritos,

De uma lady lázaro a se decompor.

W.O.


terça-feira, 13 de março de 2007

A elite


Como todas as coisas ditas, sempre beiram ao vazio nesse jogo sem fim de palavras e mesmices...

A dica é talvez não se permitir pensar, não faz bem a sanidade mental e paradoxalmente penso nisto todo o tempo ocioso em que vivo. Certa vez Nietzsche falou da consideração monumental em que também estão fincados a existência amargurada das moscas e o seu centro voante. No entanto, consiguo pensar melhor a partir do prisma dos ratos, mordem de ódio e de amrgura de sua condição, odeiam viver no lixo, ser o próprio lixo, mas ao rato não parece haver possibilidade de saída, mas até ai há um grau fenomenológico, são a elite da sujeira.