terça-feira, 20 de março de 2007

A Mundanidade


Adágio Poco Mosso

Do alto da minha janela, a intensa melodia de adágio poco mosso, me remete a alegria das tenras tardes em que outrora sonhava com a mágica que a vida trazia, quase como um presente, suave e febril. Há... essa atmosfera de sonhos na qual realizava quase uma vida paralelamente a realidade, fazia minha alma realizar-se apenas em sonhos. É um risco sonhar tão alto, pois a queda de retorno à realidade soa quase como uma prisão. Pois é, sou quase como um pássaro ferido, no qual encontra a prisão no universo racional. O meu algoz? Há, já o conheço de longa data, está em min, sou eu, quer dizer acho que deve ser algum dos milhares de eus que em min reside. Há que melancolia, sentimento vago e indefinido, que nem se faz alegre nem triste, é só como é mesmo, “uma coisa defronte da outra”, no entanto, “nem uma coisa nem outra”. Há ha há... Quem me dera nascer de novo, e assim me fazer outra vez, de como eu era menina, e de como eu não sofria, ao sofrer demais e mesmo assim não entender deveras o que sentia. Que prazer, que dor, que viver sem cor.
Meu pesar que não cessa jamais é interrompido pela coruja amiga, que busca repouso antes do vôo da noite na penetração pela escuridão voraz e parece me olhar, mas é só uma impressão do que se faz centro do universo, só um eco e uma vontade. Essa esperança do sonho é quase meu destino fatal e minha descrença subjugada e tolhida. Desesperançosamente bela. Há minhas lamúrias, desbravam toda a tensão do meu mundo atômico. É uma dor, é uma sorrir sem sentir, é quase como um grito surdo de uma latrina qualquer, do correr incessante, por uma rua tediosa e esquecida. Dos dias que corri, dos dias que cantei desdenhosamente quando fui conquistadora de um novo mundo que em min se formava e de onde tirei todas as riquezas e tesouros... Mas que exploração inútil, pois agora nada encontro e me deito em solo infértil, sinto essa rigidez, seca e pavorosa, que me estendo e durmo de calor.
Poxa que calor, que saudade das tardes tenras, poxa quanta dor, quanto amor que guardo em min, de desejo de um mundo esquecido, deixado para trás e de minha história que nem sei contar mais. Quantas horas, quantos atrasos, quantos minutos perdidos numa janela de sonhos e de uma vida que quase não vivi. E onde estava então? Não sei, não vi, acho que também não senti! Hei converse comigo, me diga a que horas tudo isso se passou, e por que eu perdi. Fatalidade ou destino, de tão piegas que soa quase esqueci da premonição fatal, da rainha do desassossego, a angústia plena e introvertida que me tirou o sono e me deixou sem consolo, que me tirou a vida e me deixou sem sonhos, no adágio poco mosso, das ilusões do que nunca vivi.
E assim soa mais um dia qualquer na minha vida inútil que passa devagar. Sento e espero alguma mudança, mas nada acontece, é sempre esta mesma angústia, de estar assim pensativa, esperando um grande acontecimento. Vi na TV uma hora dessas o segredo da longevidade da vida—A esperança. Mas que tolice, tenho vivido todos esses anos assim, iludidos por este sentimento nefasto que chamam esperança, mas que dele quase me livrei, pois de nada basta juntar pedaços de memórias tristes como indício de um novo despertar. Essa bizarrice chamada esperança só nos serve de consolo de uma vida fastiosa e mesquinha que nos exige sempre mais e sempre de novo, e sempre a mesma coisa. Há que tédio fulminante, que ódio hostil dessa vida tão ingrata e indolor, tão desmerecedora de prazer.
Eu sei o exatamente o que pensar de algo assim que escrevo: pesado, tedioso, enfadonho, comum, ou seja, o puro romantismo agonizante de outrora, que sempre nos perpassa no mais das vezes, como uma lança a cortar na carne e nos envolver numa dor indizível. Mas é apenas o que há e então o que posso fazer porra? Não tenho lugar no mundo, neste mundo que é para pessoas que se dobram em utilidades, na utilidade de servir aos outros, de exercerem seus papeis representativos. Poxa todo esse mise en scène, essas máscaras, esse jogo de se recobrir em gostos e disposições como genuíno esforço de se fazer presente frente ao mundo, quando na verdade só possuímos o jogo livre da fantasia, do mundo dos sonhos, nossa imaginação, um mundo próprio livre das convenções, cheia de desejos e meias verdades, que a ninguém tem o que dizer somente uma fuga, um abrigo solitário e ingênuo, pois tem medo desse mundo instituído em regras e conceitos.
Preciso me alimentar não mais de frutos perniciosos que contaminam cada parte minha, mas sim preciso alimentar algo em min que se encontra rompido por gerações de detratores, algo como um afrodisíaco ou um estimulante, renovador, cheio de força e, sobretudo, mágico. Sei que erro quando peço em voz alta, sei que é uma fraqueza minha, mas nesse mundo agonizante é tudo que me resta, é ver do alto da montanha que está o ovo da serpente e através da tempestade não mais sonhar, mas sim contemplar a força, encontrando o anelo que me envolverá enfim de volta ao lar.

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Um comentário:

lilnigrae disse...

esqueci de postar que é a segunda parte de A mundanidade.